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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Indignai-vos!

"Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos."
Bertold Brecht



O pressuposto básico do capitalismo é a mais-valia. Grosseiramente falando, o sistema capitalista funciona da seguinte maneira: um pequeno grupo, dos capitalistas, possuem os meios de produção (o maquinário, o capital, a tecnologia) e precisam da mão de obra de outros indivíduos para gerar o produto final. Com esse objetivo, o trabalho foi transformado em mercadoria e em troca da mão de obra especializada ou qualificada da classe operária, nós, são pagos os salários.

A diretriz básica do capitalismo, originariamente baseado nos sistema fordista-taylorista, preconiza a minimização dos custos, a maximização da produção e dos lucros. Lucros estes que não são repartidos de forma igual entre os membros da organização. Não é incomum que muitas delas ainda possuam funcionários que cumprindo longas jornadas de trabalho, associadas a baixos salários (tendo em vista o lucro total), com condições exploratórias explicitas ou implícitas.  

A divisão dos recursos é desigual e é ai que entra a lavagem cerebral ideológica capitalista para amansar e legitimar as diferenças e a desigualdade social. O nosso sistema se mascara por trás de diversas ideologias de alienação e domesticação dos seus membros. A primeira delas foram as ideias protestantes, financiadas pela burguesia na Idade Média, com objetivo de enfraquecer a hegemonia da Igreja Católica. Ideias religiosas de que o "trabalho edifica o homem" e do "acúmulo do dinheiro como merecimento e demonstração da benção de Deus" legitimaram por muito tempo a desigualdade de renda neste sistema. Posteriormente, com o avanço do saber cientifico outras teorias foram utilizadas. É aqui que inventam a concepção de individuo e da meritocracia. 

A meritocracia refere-se ao ganho por mérito, ao capital associado ao esforço e ao merecimento, seja pelo trabalho ou estudo. Dentro desta lógica, aqueles que por uma acaso estariam excluídos ou vivessem na miséria também seriam merecedores daquela realidade, por se tratarem de indivíduos “fracassados” que não venceram na vida por falta de determinação e esforço. Ou seja, individualiza e responsabiliza apenas a força de vontade do sujeito para o alcance do sucesso, do dinheiro e etc. 

Infelizmente, é um discurso comum que ofusca a realidade. Nem todos possuem e possuirão as mesmas oportunidades para desenvolver esse tipo de crescimento. Pois, enquanto alguns nascem em famílias que dão todo suporte para um desenvolvimento acadêmico, com as necessidades básicas supridas, outros estão muito atrás da largada, precisando garantir ainda as necessidades básicas. Driblando o ciclo de violações recorrente em todos os âmbitos. 

A desigualdade é nítida e está em nossa frente todos os dias, o que fizemos foi apenas naturalizar o que choca aos nossos olhos. O nome deste texto é o nome de um livro de Sthephane Hessel lançado agora em 2011, o titulo por si só já nos convoca a repensar a nossa realidade. Indignai-vos! Afinal nós passamos por pessoas todos os dias morando e dormindo nas ruas e vemos todos os dias crianças trabalhando. Indignai-vos! Já que aceitamos um serviço público de direito precarizado sem contestar, endeusando o privado.

Precisamos parar de naturalizar o que não é natural e parar de assistir a desumanização sem se chocar. Devemos nos indignar com nosso sistema, mascarado de bem-estar, liberdade e livre arbítrio. Não somos livres. O sistema precisa que a gente permaneça no mesmo lugar, alienados, batendo martelo, consumindo e sem contestá-lo. É interessante para quem lucra com a escravidão assalariada, que nós não percebamos que a causa da violência, da pobreza, da fome, do crime não é a droga, a falta de comida, a pobreza, não é o mal, ou o demônio, os marginais e os preguiçosos. Precisamos perceber que a principal causa disso é sim o capitalismo. 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Eu, a Psicologia e o Direitos Humanos...


Diante das minhas inquietações e questionamentos incessantes. Diante da minha prática e das teorias que me direcionam. Diante da minha crença em uma psicologia transformadora e libertadora, contrária a tradição de manutenção e adequação do sujeito ao sistema, eis que sinto a necessidade de sistematizar tudo que penso e que sinto e tudo aquilo que tenho certeza que não sei.

Nesse blog não tenho nenhum compromisso institucional, nenhum compromisso ideológico ou partidário. O objetivo deste blog não é levantar polêmicas, mas a partir das minhas impressões dos fatos, construir e apresentar uma outra forma possível de ver a realidade. Uma realidade pautada em um saber psicológico politizado, implicado nas discussões de defesa dos direitos humanos e de compromisso social. Um saber psicológico que não enxerga o individuo descolado da sua cultura e do seu processo histórico, social e econômico. Um saber psicológico que prioriza a historicidade dos fatos, que considera a história de dominação entre as etnias, entre os gêneros, entre as classes.

Enfim, a partir do olhar de uma aspirante a psicóloga, o objetivo deste blog é expor, aquilo que penso, aquilo que acredito, aquilo que vejo, aquilo que acho que sei. É escrever a psicologia que desejo.