Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos."
Bertold Brecht
A diretriz básica do capitalismo, originariamente baseado nos sistema
fordista-taylorista, preconiza a minimização dos custos, a maximização da
produção e dos lucros. Lucros estes que não são repartidos de forma igual entre
os membros da organização. Não é incomum que muitas delas ainda possuam funcionários que cumprindo longas jornadas de trabalho, associadas a baixos salários (tendo em vista o lucro total), com condições exploratórias explicitas ou implícitas.
O pressuposto básico do capitalismo é a mais-valia. Grosseiramente falando, o sistema capitalista funciona da seguinte
maneira: um pequeno grupo, dos capitalistas, possuem os meios de produção (o
maquinário, o capital, a tecnologia) e precisam da mão de obra de outros indivíduos para
gerar o produto final. Com esse objetivo, o trabalho foi transformado em mercadoria e em troca da mão de obra especializada ou qualificada da classe
operária, nós, são pagos os salários.
A divisão dos recursos é desigual e é ai que entra a lavagem
cerebral ideológica capitalista para amansar e legitimar as diferenças e a
desigualdade social. O nosso sistema se mascara por trás de diversas ideologias de
alienação e domesticação dos seus membros. A primeira delas foram as ideias
protestantes, financiadas pela burguesia na Idade Média, com objetivo de
enfraquecer a hegemonia da Igreja Católica. Ideias religiosas de
que o "trabalho edifica o homem" e do "acúmulo do dinheiro como
merecimento e demonstração da benção de Deus" legitimaram por muito
tempo a desigualdade de renda neste sistema. Posteriormente, com o avanço do
saber cientifico outras teorias foram utilizadas. É aqui que inventam a
concepção de individuo e da meritocracia.
A meritocracia
refere-se ao ganho por mérito, ao capital associado ao esforço e ao
merecimento, seja pelo trabalho ou estudo. Dentro desta lógica, aqueles que por
uma acaso estariam excluídos ou vivessem na miséria também seriam merecedores
daquela realidade, por se tratarem de indivíduos “fracassados” que não venceram
na vida por falta de determinação e esforço. Ou seja, individualiza e
responsabiliza apenas a força de vontade do sujeito para o alcance do sucesso,
do dinheiro e etc.
Infelizmente, é um discurso
comum que ofusca a realidade. Nem todos possuem e possuirão as mesmas
oportunidades para desenvolver esse tipo de crescimento. Pois, enquanto alguns
nascem em famílias que dão todo suporte para um desenvolvimento acadêmico, com
as necessidades básicas supridas, outros estão muito atrás da largada, precisando garantir ainda as necessidades básicas. Driblando o ciclo de
violações recorrente em todos os âmbitos.
A desigualdade
é nítida e está em nossa frente todos os dias, o que fizemos foi apenas
naturalizar o que choca aos nossos olhos. O nome deste texto é o nome de um
livro de Sthephane Hessel lançado agora em 2011, o titulo por si só já nos
convoca a repensar a nossa realidade. Indignai-vos! Afinal nós passamos por
pessoas todos os dias morando e dormindo nas ruas e vemos todos os dias
crianças trabalhando. Indignai-vos! Já que aceitamos um serviço público de direito precarizado sem contestar, endeusando o privado.
Precisamos
parar de naturalizar o que não é natural e parar de assistir a desumanização sem se chocar. Devemos nos indignar com nosso sistema,
mascarado de bem-estar, liberdade e livre arbítrio. Não somos livres. O sistema precisa que a gente permaneça no mesmo lugar, alienados, batendo
martelo, consumindo e sem contestá-lo. É interessante para quem lucra com a
escravidão assalariada, que nós não percebamos que a causa da violência, da
pobreza, da fome, do crime não é a droga, a falta de comida, a pobreza, não é o mal, ou o
demônio, os marginais e os preguiçosos. Precisamos perceber que a principal causa disso é sim o capitalismo.

